Entrevista Animeland [2003] - Masami Kurumada




Esta é uma entrevista a Masami Kurumada que apareceu na revista especializada francesa Animeland, pouco antes da saída do filme Saint Seiya Tenkai-hen Josô – Overture. Devido ao contexto, algumas perguntas são específicas para o público francês.


Animeland: Suas obras estão na mesma linha das criadas por Ikki Kajiwara. É um gênero em que você se reconhece?
Kurumada: Sim, eu sou um grande admirador deste estilo de narrativa. A abnegação, a superação de si mesmo, uma amizade impossível de se vencer...


Animeland: Sim, mas frequentemente esse gênero de histórias é muito doloroso e com finais tristes...
Kurumada: É verdade. Toda grande história, se ela mostra seus heróis lutando até a morte, tem muitas vezes um desfecho dramático, que pode ser também a própria morte...


Animeland: Seus personagens de Saint Seiya conheceram um grande sucesso na Europa. Como o senhor explica isso?
Kurumada: Penso que se uma história é envolvente, com personagens consistentes, terá sucesso. A noção de "herói" é comum a todas as culturas.


Animeland: Seus protagonistas de Saint Seiya têm todos seus notáveis "complexos". Isso não é típico dos heróis, não é?
Kurumada: Vocês sabem que no começo, quando eu trabalhava na trama de Saint Seiya, Atena não existiria. Cada personagem tinha seu "projeto" próprio e devia encontrar a sua "Atena". Como vocês mencionaram, de fato, meus personagens têm complexos mais ou menos significativos, que condicionam suas vidas. Todos devem saber como resolvê-los, mas isso pode ser difícil de compreender para os leitores da Shônen Jump, que são na sua maioria jovens. Para isso, se desenvolveu o personagem de Atena.


Animeland: O senhor faz parte do movimento Nekketsu (histórias de aventura com personagens que têm relações de amizade e lealdade; nota), porém agregou a suas histórias um toque muito pessoal.
Kurumada: Penso que há um toque de elegância que não se consegue encontrar no mangá de Ikki Kajiwara ou de Hiroshi Motomiya. Acho que a pesquisa que fiz sobre os nomes das técnicas, armaduras, universo dos personagens etc, teve um peso enorme sobre o público e permitiu à história conquistar também uma ampla audiência feminina, que outras obras do mesmo género não têm, por exemplo. Sempre uso minha atenção, desenhando, para fazer que o meu mangá dê uma ideia de beleza estética.


Animeland: Falando de elegância... em suas histórias desempenham papéis importantes também personagens femininos, ainda que o universo de seus personagens seja predominantemente masculino.
Kurumada: É verdade. Minhas histórias são Nekketsu, histórias em que os duelos de homem contra homem são a regra, mas um dos temas recorrentes do gênero é a história de amor. No momento mais difícil da batalha, a doçura de um personagem feminino, ou até mesmo o rigor moral dos conselhos de um mestre, também do sexo feminino, pode desempenhar um papel importante para o herói, permitindo-lhe superar-se.


Animeland: Falemos de Saint Seiya. Em 2002-2003 se viu o retorno de nossos heróis depois de mais de dez anos de ausência. E mais uma vez, houve um grande sucesso. Por isso, se poderia prever um retorno de Saint Seiya em versão mangá?
Kurumada: Saint Seiya era um mangá muito, muito desafiador para mim. Desenhar todos os dias os personagens com armaduras cada vez mais complexas me privava completamente da minha energia. Detive-me após Hades porque não podia mais.


Animeland: Então nada de Tenkai-hen, em que nossos Guerreiros Sagrados se oporiam ao reinado de Zeus, para um grande final?
Kurumada: Zeus não deve ser o capítulo final de Saint Seiya. Nas minhas intenções, eu queria terminar a história com os dois deuses que deram origem à humanidade, Gaia e Cronos, genitores de todos os deuses. Mas redesenhei um pouco de Saint Seiya por causa do lançamento, em fevereiro próximo, do novo filme. Trata-se de uma dezena de páginas, acho, a ser lançada pouco antes da estreia do filme. Eu estou desenvolvendo, no momento, o roteiro do filme.


Animeland: Como foi a sua colaboração com Shingo Araki?
Kurumada: Muito boa. O senhor Araki deu uma grande força visual para a saga de Seiya. Seus trabalhos em Seiya e em Kojirô, no passado, me encantaram e por isso pedi sua cooperação para os OVAs de Hades, esperando obtê-la.


Animeland: Onde encontra a inspiração para desenvolver os personagens de seus mangás?
Kurumada: Eu sou inspirado por alguns personagens de mangás que li no passado, mas também por personagens ou ambientações de certos filmes. Por exemplo, me agradam muito os filmes sobre yakuza feitos pelo vilipendiado Kinji Fukasaku. Sua saga se chama Jingi Naki Tatakai (guerreiros sem honra). Também adoro a saga de Parrain.


Animeland: Mas os heróis dessas histórias são bastante perversos...
Kurumada: Sim, no entanto, eles têm certa grandeza. Com efeito, no contexto da história, são muito elegantes. Há certa graça e beleza nesses filmes.


Animeland: Em outubro de 1990, o sucesso de Saint Seiya era grande na França, e não por acaso você foi entrevistado por um programa francês (Le Club Dorothee).
Kurumada: De fato, certa manhã chegou uma demanda à minha casa editoral, Shueisha, da parte de um programa francês, que me pediu uma entrevista por telefone simplesmente porque a série ia muito bem com eles. Devido ao fuso horário diferente, fizemos a entrevista no meio da noite. Dessa forma, porém, pude conhecer um pouco do francês e dos episódios transmitidos no seu idioma.


Animeland: Saint Seiya está sendo transmitido nos EUA. Em que isso lhe faz pensar?
Kurumada: Há alguns anos, na minha mesa chegou um projeto de um filme live-action... Hollywood tinha produzido um "piloto" de quinze minutos. Mas o espírito da série não foi respeitado. As imagens e a realização fizeram pensar em uma espécie de “Tartarugas Ninja”, os nomes haviam sido mudados, etc... o projeto foi abandonado antes que pudesse dar resultados satisfatórios.


Animeland: Além da série Ring ni Kakero 2, que está escrevendo e desenhando em pessoa, no ano de 2002 você iniciou a série Saint Seiya Episódio G, desenhada por Megumu Okada, e uma nova saga de Fûma no Kojirô, desenhada por seu discípulo Satoshi Yuri. Pode nos contar mais sobre esses dois projetos?
Kurumada: Eu realizo um papel de supervisão, mas os mangakás são totalmente livres para desenvolver a história. Megumu Okada faz um trabalho realmente impressionante, conseguindo saber impor um estilo e uma história muito fortes. Satoshi Yuri é muito consciente e trabalha com seriedade. Sendo meu discípulo, trabalha em meu próprio estúdio, então eu posso me gabar de cuidar de seu trabalho em Kojirô mais do que do feito em Episódio G.


Animeland: Seus atuais personagens são grandes viajantes. O protagonista de Ring ni Kakero 2, Rindo Kenzaki, viaja à Itália e à França. Da mesma forma, Seiya e seus companheiros viajam muito. O senhor também faz o mesmo?
Kurumada: Pouco, infelizmente. Meu trabalho não me deixa muito tempo para viajar.


Animeland: Você gostaria de ir encontrar seus fãs no exterior?
Kurumada: Naturalmente, seria uma experiência muito interessante. Pode ser que, quando esteja menos ocupado, visite-os na Europa...


Animeland: Uma mensagem a todos os fãs franceses?
Kurumada: Eu quero agradecer a vocês por me apoiarem durante todos esses anos e espero poder ter o seu incentivo também no futuro. Graças a vocês, pude ver que os heróis não conhecem fronteiras, e que apesar das diferenças culturais uma boa história pode interessar tantas pessoas.

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